Segunda-feira, 5 de Março de 2012

de frofundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria.


Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto  
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
  

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso


Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós 
mas não te importes 
não te importes
muito 
nós só temos a ver
com o presente 
perfeito 
corsários de olhos de gato intransponível 
maravilhados    maravilhosos    únicos 
nem pretérito nem futuro tem 
o estranho verbo nosso  
                            Mário Cesariny                       

Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

"- How do I start a conversation that might end us?"

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

Escamas e espinhos de obsidiana

(...) Binyamin deixou de sentir. A caruma começou a rarear sob os seus pés de andar leve, os arbustos deixaram de a rodear e viu-se na fronteira de uma praia muito diferente do que conhecia. Não havia dunas, o arvoredo terminava abruptamente num areal extremamente plano, o mar apenas respondia ao clamor do vento naquele estranho mundo privado de lua, mas com uma noite amenizada por uma infinidade de grandes estrelas, ou pequenas, ou simplesmente medianas, mas num céu em que mesmo as mais ínfimas eram absurdamente distinguíveis.

Na infinidade do seu espanto contornou uma dezena de pessoas silenciosas. Moviam-se, mas Binyamin, talvez pela quantidade de informação visual que o seu cérebro estava a processar, não as ouviu. Tudo lhe parecia de um silêncio atroz. No mar viu reflectidas as luzes douradas das velas que aquele grupo desorganizado segurava nas mãos e que contrastavam com o reflexo prateado das estrelas no mar escuro. Apercebeu-se de chegar ao mar sentindo a areia fria entre os seus dedos.

Sobressaltou-se com a interferência fria que se ouviu de um grande aparelho electrónico, um qualquer intercomunicador portátil de onde ouviu uma voz feminina, numa tristeza perdida, numa língua qualquer, perdida de esperança e que lhe pareceu tão distante. Foi quando os viu.

Dois jovens de cabelos curtos e claros, de calças de ganga escura e com os pés na areia, encontravam-se virados um para o outro sem espaço entre si. Um deles (o que Binyamin julgou mais baixo) encontrava-se com os braços dobrados em direcção ao próprio peito, segurando algo que o abraço apertado do outro rapaz não deixava adivinhar. Separaram-se no momento em que uma menina se agarrou à sua perna. Binyamin sentiu o frio da pequena mas por alguma razão não conseguiu desprender a atenção dos outros dois.

O mais baixo mostrava agora nas mãos o que antes não se conseguia ver, um pano escuro e baço que lhe fugia das mãos e que parecia envolver algo do tamanho de uma laranja. Ao deixar cair o pano revelou ao outro um objecto completamente negro. Aproveitando o desprender da menina, Binyamin aproximou-se e vislumbrou um objecto quase oval, coberto de placas semelhantes a escamas que lhe pareceram de obsidiana. Em determinados locais essas placas convergiam de forma a formar pequenos espinhos, reparou então que as mãos do rapaz mais baixo se encontravam repletas de cicatrizes recentes reflexo do seu profundo sentimento de cuidado e preocupação pelo objecto.

Binyamin recordaria sempre como o outro rapaz colocou as suas mãos junto às do primeiro e como juntos colocaram o objecto sobre a areia húmida. Binyamin percebeu que mesmo que as suas mãos estivessem livres de cicatrizes o objecto era igualmente dele. Juntos desprenderam-se de tudo.

Terça-feira, 21 de Junho de 2011

Ausência de uma sombra

Dourado, castanho. A cor que temos na nossa imaginação, quando pensamos nas fotos que em pequenos vimos dos nossos avós jovens, aquele sépia amarelado pelos dias em que as rugas se instalaram. Sépia esse que prolongaria a vida.
É nessa cor que nos imagino. Juntos. Lado a lado, olhando em frente, preservados pelo enxofre, numa daquelas fotos que tirávamos uma vez por ano, em ocasião da visita do fotógrafo à vila. Estaríamos olhando sérios e fixamente a câmara, tentando ao máximo imortalizar a imagem de cada um. Nada revelaríamos. Quem hoje olhasse para a foto não saberia dizer porque nela apareceríamos juntos. Irmãos? Vizinhos cujas famílias tivessem juntado para poupar no investimento fotográfico? Se não soubesse gostava de pensar que era afilhado da tua mãe, ou o inverso, diverte-me pensar isso. Mas sei. E quando a tirámos, nesse momento de olhar perdido na grande objectiva, vendo o fotografo desaparecer numa sombra, soube, que um dia se voltasse a olhar a foto pensaria no dia em que te soube pela primeira vez.
Iria recordar quando entrei no teu quarto, não pela primeira vez, mas pela primeira vez em que realmente entrei, em que entrei só eu, e um eu completo, inteiro e pronto a perder-se. Tinha ficado tarde e fiquei para dormir. Quando sustive a respiração e empurrei a porta sentindo todos os ângulos das curvas talhadas na madeira, os meus pés no chão de tijoleira frio, vi o teu cabelo brilhar na luz pálida que já entrava pelas cortinas rendilhadas. Deitei-me, já dormias. Por vezes pensava ouvir-te, sentia-te acordado, mas estavas virado para o outro lado e não sabia. Acordei e estavas junto a mim, sem tocar, mas ali. Se me mexesse tocava-te, e como queria tocar... Estavas logo ali, junto a mim, a tua cabeça a rasar o meu peito. Demasiado perto naquela cama tão grande. Soube nesse dia que realmente te queria, e soube que se te tocasse te perdia. Ao acordar ficamos no silêncio, esperando.

Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

três raivas

raiva.



em minúsculas, tudo assim. é uma pequena raiva. uma pequena sensação, intermitente, corpulenta, sem sentido, ruim, feia, nacarado, tua.



raiva de não escrever aqui por ti.



de não escrever aqui por não saber escrever.



fazes-me falta. tu, tu e tu. três vezes tu, e três "tu" diferentes.



talvez os três "tu" que mais me fizeram escrever.






1 - tu, vi agora uma foto tua, estás naquela piscina, que já foi um pouco nossa, sabes? não só nossa, era algo pequeno, algo compartilhado, mas era bom e agora? agora já não há quatro amigos... ficaram três. um assiste a dois zangarem-se quando a sua linha não era só amiga. fica um com dois, mas dois só com um. e eu fui o vosso um, um amigo para um. um amigo confuso para outro. e tu. tu eras também confuso na linha que nos juntava, era uma linha de amigos, mas não era segura. era confusa. era pendente, intermitente, cadente e ambiciosa, a linha queria algo mais para nós. não me tenho lembrado de ti, mas quando vi hoje a foto fiquei triste, era um sitio nosso, foi por isso, foi uma pequena raiva. e apercebi-me das saudades que tinha e de que, por mais que esconda de mim próprio, preciso de ti na minha vida, não sei de que forma mas preciso. e sei que nada faço. que a linha quebrou quando a tua se juntou a do outro do trio, mas rapidamente a vossa se cortou de novo. e quando vi que a nossa se quebrou? não tentei, e nada recebi. mas foi quando, quando recebi um formal, pomposo e arrependido pedido de desculpas. aceitei. mas nada mudou. és um menos um por enquanto.






2 - não posso deixar de sorrir. por ti. pelo que te tornas.te. foi estranho. não foi, mas... quando subi as escadas do metro do chiado, no preciso momento em que acabei de ler a tua fita... e fiquei parado. foi muito. muito mesmo. e quando me deste a fita. lá em baixo no metro. quando me afastei e gritaste o meu nome e disseste que tínhamos de combinar algo? para eu combinar algo contigo? e não combinei, não ainda. mas quero! muito. não és a fita, não és o tempo que passámos juntos quando te dei a fita, és muito mais, sempre foste. és o meu "primo" mais novo, o meu orgulho. és um mais um.






3 - de ti também tenho uma falta. não sei, não sei mesmo. tenho uma pequena falta de coisas que eras. da naturalidade das coisas, hoje nada seria natural. portanto não tenho falta. mas nunca sei se tenho. digo que não tenho. e é o que realmente penso.mas? mas nunca tenho certeza, nunca é um cem por cento, nunca é tudo. mas posso ter falta. se tiver tenho, não. não vejo. não vejo que volte a ter algo dessas coisas. lembras-te daqueles saquinhos do chupa em forma de pé? fomos um pouco isso. primeiro o sabor doce do chupa. infantil, amigo, suave, que ao tocar no inicio dos estalidos começou a borbulhar tudo em nós, e lá se afundou nos estalidos, e foi o que vimos, foi tudo aquilo e até durou, mas os estalidos também chateiam e já chegava de estalidos. e hoje, hoje somos uma embalagem. perdida, perdida durante quase um ano. e parece que a encontrámos... já não há chupa, já não há estalidos. e sentimos falta de algo, porque só há um vazio. e talvez queiras procurar algo do chupa, um pequeno pedaço partido no fundo da embalagem, ou mesmo um pequeno estalido. mas a mim? a mim não me parece possível, nem quero, tenho medo sim, porque estou bem assim. porque não vejo como poderia voltar a ser chupa ou estalido. já não o sei ser. já perdi isso, vou me repetir, tudo muda, nós mudamos e já não sou chupa ou estalido. e não o quero voltar a ser. talvez um dia sejamos algo parecido com o chupa, suave sabes? mas não vejo como. não sei o que sou, talvez um dia olhe para trás e arranje uma analogia para o agora, esperemos. não és mais nem menos um tu. és um pequeno vazio, de uma embalagem de chupa.

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Anjo

Dias depois de receber aquela carta soube que não estava sozinho na praia. Senti a sua presença na brisa do alvorecer mas não quis nem consegui voltar a fugir. Aconteceu uma tarde, quando me sentara a escrever diante da janela, enquanto esperava que o Sol mergulhasse no horizonte. Ouvi os passos sobre as tábuas de madeira que formavam o molhe e vi-o.
(...), vestido de branco, caminhava pelo molhe e trazia pela mão uma menina de uns sete ou oito anos. Reconheci imendiatamente a imagem, aquela velha fotogradia que Cristina guardara toda a vida sem saber de onde provinha. (...) aproximou-se do final do molhe e ajoelhou-se junto da menina. Comtemplaram juntos o sol que se derramava sobre o oceano numa infinita película de ouro cadente. Saí da cabana e avancei pelo molhe. Ao chegar ao fim, voltou-se e sorriu-me. Não havia ameaça nem rancor no seu rosto, apenas uma sombra de melancolia.
- Tive saudades suas(...) - disse - Tive saudades das nossas conversas, até das nossas pequenas discussões...

por Carlos Ruiz Zafón em "O Jogo do Anjo"

Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Nesta Rua

Nesta rua, nesta rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão

Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei teu coração
Tu roubaste, tu roubaste o meu também

Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque, é porque te quero bem

Se esta rua, se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Para o meu, para o meu amor passar

Nesta rua, nesta rua tem um bosque

que se chama, que se chama,

solidão